Matéria sobre a Dulcinéia

Filed Under (Editoras, Poesia, Publicações artesanais) by admin on 10-09-2008

O jornal paranaense Gazeta do Povo, destaca em matéria de 09/09, o trabalho da cooperativa paulistana Dulcinéia Catadora, que publica livros de poesias artesanais. Utilizando material reciclado, a cooperativa estimula os filhos de carrinheiros a desenvolver as capas das edições. Entre os diversos autores do catálogo, destacam-se escritores que colaboram com a Critério: Ademir Demarchi, Marcelo Ariel e Maicknuclear. Para leitura da matéria acesse: http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/cadernog/conteudo.phtml?tl=1&id=805972&tit=Do-papelao-para-o-infinito

Ademir Demarchi e Cândido Rolim publicam pela Éblis

Filed Under (Edições, Poesia) by admin on 08-09-2008

Com a publicação de Passeios na floresta, de Ademir Demarchi, e Camisa qual, de Cândido Rolim, a Editora Éblis chega ao quinto título do seu catálogo, confirmando, em pouco mais de um ano de existência, a impertinência do seu projeto editorial: o gesto estético e crítico da publicação de poesia.

Contra o pano de fundo do cenário literário contemporâneo, onde o provincianismo é muito ativo e o cult muito cansativo, os dois novos títulos reafirmam o rigor e a unidade do catálogo da editora: um time de poetas que encaram a criação poética como uma sempre confrontação com a linguagem, como um fazer frente à exaustão da linguagem, envolvendo a experimentação e a negação de clichês retóricos.

 

 

Em Passeios na Floresta, Ademir Demarchi, paranaense radicado em Santos, sem receio do extravio, se embrenha pelas vias imprecisas da floresta da linguagem, usando a metáfora de Paul Valéry capturada à epígrafe do livro. A partir daí, o poeta alcança a sua errância por meio de efeitos de cálculos, mapeando encontros imprevistos, aqui com Mr. Conrad (imensidão de água sob os pés/ dentro do barco bêbado o mar no convés), ali com Nietzsche (pequenas nuvens no pasto ôntico e ótico) e acolá com o Sangue Ruim (caminhamos como sempre para o grande encontro/ com o imenso Espírito-de-Porco). No extravio calculado, Ademir alcança, como Ulisses, a possibilidade de ter o que contar, em articulações inesperadas, a experiência da linguagem: não, não tenha medo não/ pois o homem em guerra morre em vão/ lançando setas sem osso ao caos/ enquanto o sábio poeta deleita-se nos seios das sereias/ e navega o acaso cantando as naus.

 

 

Camisa qual de Cândido Rolim, cearense que viveu alguns anos em Porto Alegre, mas que recentemente voltou para Fortaleza, é um livro grave, onde na superfície árida da palavra o poeta afirma uma paradoxal emoção cética ao se (des)confessar: por dentro repleto/ de outros travos/ deixo que a simples/ distração alcance/ o razoável. Assim que, no poema que dá título ao livro, abre um irritado parêntese à cordeira estridência das patriotadas de domingo: e aquele um equatoriano/ camisa algo que levou/ o drible memorável aquele/ o pano de fundo de/ chão para a ubérrima estridência/ nacional// (…) o quem mesmo? da escalação/ o zagueiro número de cobre às costas sem/ classe = 2 desses não vale 1 nosso/ com quem o craque/ exaltável ao máximo não/ troca a camisa/ nem a pele. É nesse rigor das indagações e no cuidado da forma que o livro de Cândido se faz e nada concede gratuitamente e nem sequer lhe ocorre/ ser bom não livra/ do risco de ser mal/ interpretado.

 

 

Ademir Demarchi nasceu em Maringá (PR) em 1960. Reside em Santos (SP). Doutor em Literatura Brasileira (USP), é editor de BABEL – Revista de Poesia, Tradução e Crítica. É autor de Os mortos na sala de jantar (Realejo Livros, 2007) e organizador de Passagens – Antologia de Poetas Contemporâneos do Paraná (Imprensa Oficial do Paraná, 2002). Tem poemas, ensaios e resenhas publicados em jornais e revistas impressos e na internet. e-mail: revistababel@uol.com.br

 

Cândido Rolim nasceu em Várzea Alegre (Ceará) em 1965. Reside em Fortaleza. É autor de Fragma (Fortaleza: Funcet, 2007), Pedra Habitada (Porto Alegre: AGE, 2002), Exemplos Alados (Fortaleza: Letra e Música, 1998), entre outros livros.

Tem poemas, resenhas e ensaios publicados em jornais e revista do país e na internet. e-mail: candidorolim@hotmail.com

Poemas inéditos de Claudio Daniel

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Fera bifronte
(Cinco poemas)

 

ANTICABEÇA

apartado de mim; ferocidade;
esse olhar atravessando folhas;
cegasse o vento reptante:
replicantes jias, alinhavando deserções.
entre breus, seara difratada
onde retráteis
garras do ínfero.
ao modo de borrão: ambíguo
desgarre, em acúmulo
áspero de grafias.
escavasse desde o centro
em desmedida,
e anulasse as cores da paisagem.

***

ambivalência do inseto
que se desenha íbis,
amêijoa, escaravelho,
folhas ou fíbulas, fúrias ou órbitas
insustentáveis
de outra orla, outro círculo
plasmático. tudo está
no dorso da pupila.

2005

 


CABEÇAS

Contar cabeças como janelas
dispostas em diagonal;
uma coleção de lagartos;
palavras sumérias;
trevos de quatro folhas
impressos num álbum.
Cada cabeça tem um nome
que pode ser relógio,
intestino, alfinete, isopor.
Há uma infinita variedade
de nomes estranhos.
Cada cabeça tem um preço
gravado em código de barras.
Geladeiras são mais caras
que testículos; formigas,
mais baratas que saudades.
Cada nome é um preço
composto de letras
em número par ou ímpar;
cada letra tem linhas retas
ou curvas, como os mexilhões.
Isto é tudo o que há para dizer.
Vamos acabar de contar as cabeças.

2007


PONTO

áspera paisagem de linhas
retorcidas
como ferros
de uma paisagem
amorfa.
desavença de cores
no espelho retrovisor;
cicatrizes alinhadas
nos pulsos, em desenhos
de fetos inanes.
esquinas meretrizam
esqueléticos ângulos
na noite desfocada.
unhas negras, peitos brancos,
hora sem cor,
autofágica garganta absorve
o asco de tudo.

2007

 


AFASIA

nada a dizer.
escura via de recusa;secura de oxidados
ferros, no monturo

da memória. abolir-me,
recuar ao intervalo

anterior à sombra,
em amnésia calculada;

desfazer a densa cabala,
seu alijado alfabeto

de mistérios míopes;
calar-me como velho

escaravelho, ao sol
da mente muda.

 

 


2006

 

?

Animal metafísico desliza aspereza até abolição de vocábulos.
Uivos óticos;
patas enviesadas;
fileiras assimétricas
de vértebras,
códices de enigmas ósseos.
Em branco aniquilar
sua mandíbula,
aberta como fenda sexual
interrogante.
Flora esquelética no pelame,
rarefeita desde os tufos
da cabeça,
um mofar de paisagem
desnudante.
- Seqüência numérica tatua seu dorso
improvável, circunscrito
à descentrada geometria.
Olho-de-raio persegue desfocados
passos súbitos
num deslocamento
de vermelhos.

2007

 

Claudio Daniel é poeta, tradutor e ensaísta. Publicou, entre outros títulos, A Sombra do Leopardo (Azougue, 2001), Romanceiro de Dona Virgo (Lamparina, 2004) e Figuras Metálicas (Perspectiva, 2005). É co-editor da revista eletrônica Zunái (www.revistazunai.com.br) e mantém o blog Cantar a Pele de Lontra (http://cantarapeledelontra.zip.net).

 

“Distancia” de Virna Teixeira é lançado no México - Victor Sosa comenta!

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Detalhes da Publicação:

Distancia
Editora Lunarena
Colección Gláphyras
Puebla, Mexico

Tradução: Jair Cortés e Berenice Huerta
Prologo de Mario Bojorquez

 

DISTANCIA, o de la fragilidad de las palabras.

Victor Sosa

 

 Dichten = condensare, dice la sentencia que Pound repite en su ABC de la poesía. Sin duda, poesía es condensación. Condensación del lenguaje cargado de sentido. Palabra en tensión sobre el espacio de la página que sólo es posible aprehender, comprender en su total y múltiple sentido, a partir de una extrema y cómplice atención, a partir de una respiración recíproca, semejante, análoga a esa escritura condensada entre el silencio y la elocuencia, entre el sonido y el sentido, entre el querer decir y el necesario callar de la poesía. Gran paradoja: la poesía parece decir más cuanto más calla, cuanto más oculta sus razones de expresión, cuanto menos discursiva y elocuente se nos presenta. Recordemos a san Juan de la Cruz y ésa, su “música callada”, su “no sé qué que queda balbuciendo”, su “no entender entendiendo, toda ciencia trascendiendo”.

Entre la proliferación barroca y neobarroca que oculta el sentido por exceso y superposición, por desaforada inseminación de formas en perpetua metástasis, por simultaneidad de tiempos y espacios y desfiguraciones estilísticas; entre el barroco gongorino y gorgónico de múltiples cabezas como sierpes, y su contraparte, el sanjuanino y mesurado silencio, el acotamiento y contención del enunciado, la parquedad intensa, la implosión elocutiva, el gesto, el trazo zen, la minimalista pincelada, es evidente que Virna Teixeira se vincula más con esta última tendencia, con la contención de un decir poético que se potencia y se acrisola en la sustracción y diamantización de la palabra. En ese sentido, creo que Virna ha aprendido muy bien la lección de Pound y de los poetas imaginistas, de Creeley, de William Carlos Williams también. Parece estar más cerca de la poesía norteamericana o anglosajona que de las exuberancias poéticas ibéricas de raigambre barroca. Eso se ve y se siente: se ve en la disposición de los versos, en la sintaxis cortada, elíptica, en las omisiones del sujeto, en lo no dicho; se siente en la descripción fría, objetiva, a veces aséptica, que proporciona esa distancia entre lo escrito y lo descrito, entre la palabra y lo que acontece más allá de la mirada del observador. Pongamos un ejemplo:

“MAÑANA// por la ventana/ del tren// el mismo/ paisaje// el inspector pidiendo/ boletos// la voz que/ anuncia/ atraso// un rostro que/ aguarda/ en la estación/ vacía”

Todo acontece en sordina, en voz baja, en un paisaje íntimo que describe, más allá de la escena enunciada, un estado de espíritu, una manera de percibir el mundo: una mirada. La aparente objetividad poética se desmorona ante la irrupción de esa mirada -me atrevería a decir, incluso: de ese clima verbal-, de esa manera de describir el mundo. Distancia, lejanía, separación, incomunicación, nostalgia, ¿qué otro término o palabra para definir esta escena aparentemente desprovista de acción, de desarrollo, de desenlace? No, la poeta no reflexiona: refleja. No nos dice lo que ahí pasa: dice lo que pasa. Pero no nos engañemos: ese decir lo que pasa está, también, cargado de agregados, de emociones, de sobreentendidos, de un -si se me permite el oxímoron-, laconismo elocuente, de una invisible tensión poética. Porque lo que hace a la poesía no es lo descrito sino la mirada sobre lo descrito. No el objeto sino lo dicho sobre el objeto -esa manera, esa inclinación de la palabra. En ese sentido, Virna inclina el lenguaje a su favor, dice más allá de la palabra, nombra un espacio de lo invisible y ahí entramos en la espesura, en la sinuosidad de lo no visto ni percibido por los sentidos (esos cinco ases del simulacro) pero revelado por la intuición poética, por las vibrátiles entrelíneas del lenguaje. O si lo dudan, escuchen esto: “pequeño, el/ frágil/ cuerpo/ solloza// roja/ la flor/ entre los/ dedos” Adalberto Müller, en el prólogo de este libro, se pregunta y nos pregunta: ¿Qué cuerpo? ¿Por qué solloza? No sabríamos decirlo, pero entendemos el sufrimiento y la fragilidad de la que habla el poema”.

Entonces, Distancia, de Virna Teixeira, es un libro íntimo, porque la distancia que aquí se impone -esa distancia medida en la mirada- no es de orden espacial, longitudinal, matemático, sino de orden íntimo, emocional y anímico; es de un orden y de un desorden de profundidad, donde el yo parece diluirse en una cama vacía, en un vaso de tulipanes, en un vestido amarillo iluminado por la luz de la mañana, en un silencio del otro lado de la línea telefónica, en una colección de cartas, sin fecha, e ilegibles. El yo poético se distancia, hace distancia, impone una distancia que -en definitiva- traza un puente entre el lector y la fragilidad, tan vital, de las palabras.

Ronald Augusto e Ronaldo Machado conversam sobre a editora Eblis

Filed Under (Editoras, Entrevista, Literatura, Poesia) by admin on 08-09-2008

Ronald Augusto e Ronaldo Machado lançaram em maio deste ano a editora Éblis (http://editoraeblis.blogspot.com) , voltada para a poesia, tradução e ensaios sobre poesia. Logo de início traz uma identidade marcante no tratamento gráfico e, principalmente, na forma de pensar os assuntos em torno do livro, da escrita e da leitura. Inaugurada com a edição dos livros dos próprios editores, a Éblis acrescentou ao seu time o poeta Paulo de Toledo, com seu livro “51 Mendicantos”. O Suplemento Literário da Critério quis saber mais sobre essa empreitada, os desafios, escolhas e planos para o futuro da nova editora.

“…a Editora Éblis vem à luz com uma proposta editorial simples e impertinente: a edição de livros de poesia.”

 

Títulos já publicados pela Éblis

Critério – Apesar de tantas facilidades de meios de produzir e divulgar textos, na opinião de vocês, por que ainda é impertinente a edição de livros de poesia no Brasil? Ou afinal, qual a pertinência da edição de livros de poesia no Brasil?

 

Ronald Augusto: Há, naturalmente, uma intenção crítica (ou uma provocação) contida nesta idéia de impertinência quanto à publicação de poesia. Nossa iniciativa parece ser algo “fora-do-lugar” se pensarmos a poesia num lance de rivalidade com a prosa, e tomando como arena de combate o mercado livreiro-editorial; além do mais, o mundo virtual tem cumprido um papel de descompressão de uma grande produção literária que até há pouco não dispunha destas facilidades de divulgação oferecidas pelos meios eletro-eletrônicos. Recentemente uma amiga escritora, ainda inédita em livro, me perguntava sobre a necessidade de publicar em livro. O questionamento dela levava em conta a questão da distribuição do livro e o número infinitamente menor de leitores. Como todos nós ela mantém uma página na internet. Diante de tais condições a poesia sempre levará porrada. Mas, a questão não é bater de frente com este fait accompli contemporâneo. Na verdade não há pertinência nenhuma na edição de livros de poesia. No nosso caso, a editora Éblis é apenas o desdobramento de um gesto estético (e, também, crítico) implicado no quadro mais amplo das relações literárias. Como um poema: um golpe de linguagem. E como um poema, não precisa ser explicado. Basta o prazer, o apetite pela poesia, ou o mal-estar que às vezes ela provoca em alguns.

Ronaldo Machado: Em primeiro lugar, a impertinência da edição de livros de poesia se vincula, justamente, ao próprio caráter e função da poesia: como gesto de contestação, de contra-argumentação, ao sistema literário. Depois, respondendo a segunda parte da pergunta, a impertinência que nosso editorial declara se refere ao fato de que concebemos a empreitada editorial da Éblis como um gesto político afirmativo da possibilidade de se publicar poesia no Brasil. E publicar em livro. Ai esta a rabugice de Éblis, sua “impertinência”: afirmar a necessidade do livro, do objeto-livro, como lugar da poesia. Isto sem negar, de modo algum, outros meios e lugares para a poesia ser escrita e lida.

“O foco da nova editora é pôr em circulação a poesia que não se contente com a corriqueira satisfação da moeda literária vigente, que cai, ora com a cara cult, ora com a coroa provinciana. A editora Éblis pretende jogar sobre a mesa uma outra moeda, revendo assim a economia poética contemporânea a partir de outros valores.”

Critério – Qual a moeda que a Éblis pretende cunhar nessa economia poética contemporânea? Que opções e valores estão em jogo no conceito e nas práticas da editora?

Ronald Augusto: Esta moeda poética que gira a contrapelo dos interesses dos grupelhos de poetas bem relacionados e “dos tarados defensoras das letras”, como disse Lezama Lima, já está cunhada, não é uma invenção do nosso projeto editorial, não queremos cunhar nada, do contrário estaríamos reproduzindo as mesmas imposturas desse sistema. Os poetas e textos que pretendemos publicar são realidades e movimentos efetivos com os quais nos identificamos. Eu e o Ronaldo Machado os queremos como nossos interlocutores. Com eles a editora estará bem acompanhada, pois como diz o poeta Souzalopes: “contra o tédio/ contra a morte/ contra o bode/ ou nóis se une/ ou nóis se fode” (cito de memória). Os valores da editora são os mesmos da tradição, isto é, inventar a tradição, ou as tradições, e, quanto às práticas: não desprezar as traições, os desvios, etc., sempre que a maturidade amortecida, ou a voz melíflua da consagração estiverem farejando nosso afazer e nossa afasia.

Ronaldo Machado: Fui eu que escrevi esta imagem monetária no editorial da Éblis, no momento em que discutia com o Ronald o cenário da poesia atual, mais detidamente em relação ao palco e aos personagens de Porto Alegre, onde a coroa provinciana é muito ativa e a cara cult muito cansativa. Mas a imagem vale para todo o Brasil. Então – continuando com a metáfora - se impõe uma moeda de cotação mais alta e estável frente às flutuações dos câmbios estéticos, com o lastro assegurado na lucidez de que a criação poética é sempre uma confrontação com a linguagem, é um fazer frente à exaustão da linguagem, e que seu resultado, o poema, o livro de poemas, é sempre inconcluso. São esses os valores da Éblis. E contra eles é que o cult e o provinciano coincidem: no levar barato a reflexão sobre a poesia, seja pela “expertise” de um ou pela ingenuidade do outro. As práticas, por sua vez, se mostram na opção que a editora faz de publicar e por em circulação poetas que tenham presente, de uma forma ou de outra, a consciência da “dificuldade” da poesia, o que envolve a experimentação e a negação de clichês retóricos.

Critério – Quais os principais desafios materiais que envolvem o projeto da Éblis?

Ronald Augusto: O maior problema/desafio é mesmo o da distribuição, fazer o livro de uma editora simples, pequena e impertinente chegar até a prateleira das livrarias. Somos editores recém-nascidos. Há pouco Éblis fez um ano de vida. Vamos experimentar muitos aperreios e prazeres. Mas, aos 46 anos sei que o negócio é levar os projetos sem ansiedade.

Ronaldo Machado: O grande desafio que vejo é o de mantermos a regularidade das edições. Neste primeiro ano publicamos três livros. O meu e o do Ronald, em maio, e o do Paulo de Toledo, em novembro. Esperamos manter este ritmo, equacionando os custos de edição e de divulgação, o que envolve sempre recursos próprios.

Critério – Hoje é muito comum que escritores tratem a poesia como gozo egóico estéril, pseudo-estético, ou como produção alienada nesse universo cotidiano de proletarização da atividade cultural, onde a visibilidade midiática e o universo das marcas (de mercado ou institucionais) dão o tom da liquidez e do valor de troca simbólica dos discursos.
Pode-se realmente dizer que a inovação da Éblis estaria na ênfase do investimento ético, em substituição ao modelo de fetichismo cult alternativo ?

Ronald Augusto: Vou ser curto e grosso quanto a esse lance de “investimento ético” para não correr o risco de parecer um esquerdofrênico rodando em círculos atrás do próprio rabo virtuoso: não vamos publicar contistas.

Ronaldo Machado: Exatamente, a experiência da Éblis se constitui simultaneamente como investimento ético e como criação estética. Tenho experimentado a compreensão desta inequívoca co-relação entre ética e estética e, ainda, a dimensão da fruição, do prazer, sem impostação. É muito alegre e agradável criar e tocar uma editora que é, no sentido da pergunta, irônica ao “fetichismo cult alternativo” e a poesia “sorriso da sociedade”.

Critério - Quando é mencionado um investimento ético, leia-se um tipo de diálogo diferenciado com os autores, leitores, mídias, formatos e outros editores; mais autônomo, consciente e qualitativo. Ao contrário de usar as mesmas estratégias de alienação dos textos, autores e comunicação como simples mercadorias, sempre atrás de visibilidade espetacular e liquidez simbólica, pode-se dizer que a empreitada da Éblis também procura pensar formas de relação com a literatura, seus atores e o mercado?

Ronald Augusto: Estamos tentando fazer isso, mas ao mesmo tempo não abrimos mão de problematizar a força de qualquer empreitada-arte, e isto me parece interessante porque por meio dessa suspeição irônica nos tornamos mais aptos para compreender a arte e a poesia numa dimensão menos grandiloqüente ou menos esperançosa em relação ao seu poder de fogo. Por outro lado, há poucos meses leventei algumas questões relativas ao tema num dossiê da Critério. Talvez, mesmo a revelia de seus pais fundadores, a editora Éblis venha a ter alguma importância frente à multiplicação libidinosa dessas visibilidades sem fundo ou das novas tecnologias e sua correlata insolvência. Mas isso foge ao nosso controle, pois o futuro pertence à Éblis, ou seja: ao diabo. No entanto, nosso projeto gráfico já afirma uma espécie de vontade não-perdulária no que toca ao aproveitamento dos signos. Se percebe nas capas um gesto severo de calígrafo: uma estocada de nankin sobre a folha branca. A recusa sob a escolha.

Ronaldo Machado: A Éblis se inscreve no sistema literário (nas relações com os poetas, suas obras e com os leitores) sem pedir bença ou favores. Ocupamos os espaços e os meios ao nosso alcance para dar visibilidade ao trabalho; editamos nossos próprios livros, vendemos diretamente os livros, participamos de feiras e eventos literários… mas fazemos escolhas. Vamos onde gostaríamos de ir mesmo se não tivéssemos a editora. Guardamos relações diretas, não-alienadas, com o mercado e seus atores. Não nos enganemos, porém: somos burgueses. Todos somos burgueses, já disse Sartre. E nessa (contra essa) condição - balizada pelo consumo e pelo autoritarismo - é que buscamos espaços e momentos para respirar, para criar uma “lei própria”.

Critério – Qual o critério de seleção de textos e autores para a publicação pela Éblis?

Ronald Augusto: Bons poemas (cerca de vinte, pois os livros não ultrapassam as trinta páginas), e com algum grau de inquietação formal; ensaios não-acadêmicos sobre poesia; e, finalmente, traduções, di-versões que não temam perder os “conteúdos inessenciais”.

Ronaldo Machado: Em primeiro lugar escolhemos poetas que gostamos de ler. Depois, textos adequados ao formato de nossos livros: poucas páginas e pequena tiragem. Além disso, o diálogo entre editor e poeta tem de rolar franco e tranqüilo.

Critério - Já existem novos títulos em vista para 2008 ? Quais são os planos para a editora?

Ronald Augusto: Estamos planejando a publicação de um livro de ensaios e mais três livros de poesia. Os quatro títulos devem ser lançados até setembro de 2008.

Ronaldo Machado: Em 2008 vamos lançar a Coleção Ensaio, cujo primeiro livro será sobre Baudelaire e Valéry, um volume com dois ensaios, um escrito por mim e outro pelo Ronald. Também queremos publicar mais três poetas, sendo um estrangeiro, em tradução.